27 de mar de 2013

Capitulo 6


NA MANHÃ SEGUINTE FIQUEI SURPRESA POR VER Elliot entrar no primeiro período de Educação física justo quando o sinal de atraso soou. Ele estava vestido com uma bermuda de basquete e um moletom branco da Nike. Seus tênis de cano alto pareciam novos e caros. Após dar um pedaço de papel para a Senhorita Sully, ele capturou o meu olhar. Ele deu um aceno baixo e se juntou a mim nas arquibancadas.
 “Eu estava me perguntando quando iríamos nos esbarrar novamente,” ele disse. “O escritório principal percebeu que eu não tive E.F. pelos últimos dois anos. Não é obrigatório em escolas particulares. Eles estão debatendo como vão encaixar quatro anos de E.F. nos próximos dois e meio. Então aqui estou eu. Eu tenho E.F. no primeiro e no quarto período.”
“Não fiquei sabendo por que você se transferiu para cá,” eu disse.
“A anuidade estava comendo toda a aposentadoria dos meus pais,”
A Senhorita Sully soprou seu apito.
“Suponho que o apito signifique algo,” Elliot disse para mim.
“Dez voltas ao redor do ginásio, nada de cortar caminho.” Eu me levantei das arquibancadas. “Você é atleta?”
Elliot deu um pulo, dançando na ponta dos pés. Ele lançou alguns ganchos e socos no ar. Ele terminou com um direto no queixo que parou bem perto do meu. Sorrindo, ele disse, “Um atleta? Até a alma.”
“Então você vai amar a idéia de diversão da Senhorita Sully.”
Elliot e eu corremos as dez voltas juntos, então nos dirigimos para fora, onde o ar estava atado com uma névoa fantasmagórica. Parecia obstruir os meus pulmões, me sufocando. Do céu vazava alguns pingos de chuva, tentando arduamente empurrar uma tempestade na cidade de Coldwater. Eu olhei as portas do prédio, mas sabia que não faria diferença alguma; a Senhorita Sully era durona.
“Eu preciso de dois capitães para softball,” ela chamou. “Vamos, pareçam vivos – Vamos ver algumas mãos no ar! O melhor voluntário, ou eu escolherei os times, e eu nem sempre jogo limpo.”
Elliot levantou sua mão.
“Certo,” a Senhorita Sully disse para ele. “Aqui, na base do batedor. E que tal... Selena Gomez como capitã do time vermelho.”
Os olhos de Selena varreram Elliot. “Manda ver.”
“Elliot, vá em frente e escolha primeiro,” a Senhorita Sully disse.
Precipitando seus dedos em seu queixo, Elliot examinou a sala, parecendo avaliar nossas habilidades de rebater e apanhar só pela nossa aparência. “Demi,” ele disse.
Selena jogou seu pescoço para trás e riu. “Obrigado,” ela disse a Elliot, mostrando-lhe um sorriso tóxico que, por razões que eu não conseguia entender, hipnotizava o sexo oposto.
“Pelo quê?” disse Elliot.
“Por nos entregar o jogo.” Selena apontou um dedo pra mim. “Há uma centena de razões para eu ser uma líder de torcida e a Demi não. Coordenação encabeça a lista”.
Eu estreitei meus olhos para Selena, então caminhei até o lado do Elliot e enfiei um uniforme azul por sobre a minha cabeça.
“Nora e eu somos amigos,” Elliot disse a Selena calmamente, quase friamente. Era um exagero, mas eu não ia corrigi-lo. Selena pareceu como se um balde d’água fria tivesse sido jogado nela, e eu estava gostando disso.
“Isso é porque você não conheceu ninguém melhor. Como eu.” Selena retorceu seu cabelo ao redor de seu dedo. “Selena Miller. Você saberá tudo sobre mim muito em breve.” Ou seu olho teve um tique, ou ela piscou para ele.
Elliot não deu resposta alguma, e seu ranking de aprovação subiu alguns degraus. Um cara menor  teria caído de joelhos e implorado a Selena por qualquer atenção que ela desejasse dispor.
 “Queremos ficar aqui a manhã toda esperando a chuva vir, ou ir direto ao negócio?” a Senhorita Sully perguntou.
Após dividir os times, Elliot liderou o nosso até o abrigo cavado e determinou a ordem de rebatida. Dando-me um taco, ele empurrou um capacete na minha cabeça. “Você é a primeira, Lovato. Tudo o que precisamos é que chegue a base.”
Dando um giro de prática, e quase acertando-o com ele, eu disse. “Mas eu estava com vontade de fazer um home run.”
“Vamos fazer um desses também.” Ele me direcionou na direção da base do batedor. “Vá para o campo e balance inteiramente.”
Eu equilibrei o taco no meu ombro, pensando que talvez eu devesse ter prestado mais atenção durante o World Series. Está bem, talvez eu devesse ter assistido o World Series. Meu capacete deslizou sobre meus olhos, e eu o empurrei para cima, tentando analisar o campo interno, que estava perdido debaixo de punhados de neblina necrófagas.
Selena Gomez tomou seu lugar no monte do arremessador. Ela segurou a bola na frente de si, e eu notei que seu dedo do meio estava levantado para mim. Ela mostrou outro sorriso tóxico e jogou a bola de softball para mim.
Eu peguei um pedaço dela, mandando-a voando para a terra no lado errado da linha de falta.
“Foi um strike!” a Senhorita Sully chamou de sua posição entre a primeira e a segunda base.
Elliot gritou do abrigo cavado, “Essa tinha muito giro – mande uma limpa para ela!” Levei um momento para perceber que ele estava falando com a Selena e não comigo.
Novamente a bola deixou a mão de Selena, arqueando-se sobre o céu sombrio. Eu girei, um erro puro.
“Segundo Strike,” Anthony Amowitz disse pela máscara de receptor.
Eu lhe dei um olhar duro.
Afastando-me da base, eu dei mais alguns giros de prática. Eu quase não vi Elliot vindo atrás de mim. Ele esticou seus braços ao meu redor e posicionou suas mãos no taco, fluindo com as minhas.
“Deixe-me te mostrar,” ele disse no meu ouvido. “Assim. Sente isso? Relaxe. Agora gire seu quadril – está tudo no quadril.”
Eu conseguia sentir meu rosto esquentar com os olhos da classe em nós. “Acho que peguei o jeito, obrigada.”
“Arrumem um quarto!” Selena disse para nós. O campo inteiro riu.
“Se você lhe jogasse um arremesso decente,” Elliot disse de volta, “ela acertaria a bola.”
“Meu arremesso está certeiro.”
“O giro dela está certeiro.” Elliot abaixou sua voz, falando só comigo. “Você perde contato visual no minuto que ela solta a bola. Os arremessos dela não são limpos, então você vai ter que trabalhar para acertá-los.”
“Estamos segurando o jogo aqui, gente!” a Senhorita Sully chamou.
Bem então, no estacionamento além do abrigo cavado algo chamou minha atenção. Eu pensei ter ouvido meu nome ser chamado. Eu me virei, mas mesmo quando o fazia, eu sabia que meu nome não fora dito em voz alta. Tinha sido dito silenciosamente na minha mente.
Demi.
Joe usava um boné de beisebol azul claro e estava com seus dedos presos na cerca com malha em forma de corrente, inclinando-se contra ela. Nada de casaco, apesar do clima. Só preto da cabeça aos pés. Seus olhos estavam opacos e inacessíveis enquanto ele me observava, mas eu suspeitava que havia muito acontecendo por trás deles.
Outra seqüencia de palavras arrastou-se pela minha mente.
Lições para rebater? Belo... toque.
Eu soltei uma respiração firme e disse a mim mesma que tinha imaginado as palavras. Porque a alternativa era considerar que Joe tinha o poder de enviar pensamentos para a minha mente. O que não podia ser. Simplesmente não podia. A não ser que eu estivesse delirando. Isso me assustava mais do que a ideia de que ele tivesse violado métodos normais de comunicação e pudesse, por vontade, falar comigo sem mesmo abrir sua boca.
“Lovato! Fique atenta ao jogo!”
Eu pestanejei, voltando a vida bem a tempo de ver a bola rolando pelo ar na minha direção. Eu comecei a balançar, então ouvi outra corrente de palavras.
Ainda... não.
Eu segurei, esperando pela bola chegar até mim. Enquanto ela descia, eu dei um passo para frente na direção da frente da base. Eu girei com tudo que tinha.
Um grande estouro soou, e o taco vibrou nas minhas mãos. A bola viajou até Selena, que caiu de costas. Apertando-se entre a interbase e a segunda base, a bola saltou pela grama do campo interno.
“Corre!” meu time gritou do abrigo cavado. “Corre, Demi!”
Eu corri.
“Derruba o taco!” eles gritaram.
Eu o joguei de lado.
“Fica na primeira base!”
Eu não fiquei.
Pisando num canto da primeira base, eu a circulei, correndo a toda velocidade na direção da segunda. O campo esquerdo tinha a bola agora, em posição para me expulsar. Eu abaixei minha cabeça, movi meus braços a todo gás, e tentei me lembrar como os profissionais da ESPN deslizavam para a base. Primeiro com os pés? Primeiro com a cabeça? Parar, cair, e rolar?
A bola navegou na direção do jogador da segunda base, um branco girando em algum lugar da minha visão periférica. Uma entonação animada da palavra “Deslize!” veio do abrigo cavado, mas eu ainda não tinha me decidido qual acertaria a terra gelada antes – meus sapatos ou meu rosto.
O jogador da segunda base agarrou a bola do ar. Eu mergulhei primeiro de cabeça, os braços esticados. A luva saiu do nada, descendo sobre mim. Ela colidiu com o meu rosto, um cheiro forte de couro. Meu corpo machucou-se na terra, deixando-me com um bocado de brita e areia se dissolvendo debaixo da minha língua.
“Ela está fora!” gritou a Senhorita Sully.
Eu cambaleei de lado, me inspecionando por machucados. Minhas coxas queimavam em uma estranha mistura de quente e frio, e quando levantei minha roupa de malha, dizer que parecia que dois gatos tinham sido soltos nas minhas coxas seria uma atenuação. Mancando até o abrigo cavado, eu desmoronei no banco.
“Fofo,” Elliot disse.
“O truque que eu fiz ou minha perna machucada?” Dobrando meu joelho contra meu peito, eu gentilmente tirei o máximo de terra que eu consegui.
Elliot curvou-se de lado e soprou o meu joelho. Vários dos pedaços maiores de terra caíram no chão.
Um momento de silêncio estranho se seguiu.
“Consegue andar?” ele perguntou.
Ficando de pé, eu demonstrei que, enquanto minha perna estava uma zona de arranhões e terra, eu ainda conseguia usá-la.
“Posso te levar para a enfermaria se você quiser. Te colocar uns band-aids,” ele disse.
“Sério, eu estou bem.” Eu olhei para a cerca, onde tinha visto Joe por último. Ele não estava mais ali.
“Aquele era o seu namorado parado na cerca?” Elliot perguntou.
Eu fiquei surpresa por Elliot ter notado Joe. Ele estivera de costas para ele. “Não,” eu disse. “Só um amigo. Na verdade, nem isso. Ele é o meu parceiro de biologia.”
“Você está corando.”
“Provavelmente queimadura de vento.”
A voz do Joe ainda ecoava na minha cabeça. Meu coração bombeava mais rápido, mas na verdade, meu sangue correu mais gelado. Ele tinha falado diretamente com os meus pensamentos? Havia alguma ligação inexplicável entre nós que permitia que isso acontecesse? Ou eu estava ficando louca?
Elliot não pareceu inteiramente convencido. “Você tem certeza de que nada está acontecendo entre vocês dois? Eu não quero perseguir uma garota que não está disponível.”
“Nada.” Nada que eu fosse permitir, de qualquer jeito.
Espera. O que Elliot tinha dito?
“Perdão?” eu disse.
Ele sorriu. “A Delphic Seaport reabre nesse sábado à noite, e Jules e eu estamos pensando em dirigir até lá. O clima não deve estar muito ruim. Talvez você e a Miley queiram ir?”
Eu levei um momento para considerar essa oferta. Eu tinha bastante certeza de que se eu recusasse o Elliot, a Miley me mataria. Além do mais, sair com Elliot parecia um jeito bom de escapar da minha desconfortável atração pelo Joe.
“Parece uma boa ideia,” eu disse. 
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Vamos comentar amores ):
Acho que vou mudar a vilã de Selena para alguma outra. Sugestões?

25 de mar de 2013

Capitulo 5


“POSSO AJUDÁ-LA?”
Eu me forcei a sorrir para a secretária do escritório principal, esperando não parecer tão desonesta quanto eu me sentia. “Eu tenho uma receita que tomo diariamente na escola, e minha amiga –“ Minha voz ficou presa na palavra, e eu me perguntei se depois de hoje eu chamaria Miley de minha amiga novamente. “– minha amiga me informou que eu tenho que registrá-la com a enfermeira. Você sabe se isso está correto?” Eu não conseguia acreditar que estava parada aqui, pretendendo fazer algo ilegal. Ultimamente, eu estava exibindo muitos comportamentos não característicos. Primeiro eu tinha seguido Joe para uma arcada de má reputação tarde da noite. Agora eu estava a beira de bisbilhotar seu arquivo estudantil. Qual era o meu problema? Não – qual era o problema do Joe, que quando se tratava dele, eu não conseguia parar de exercer maus julgamentos.
“Ah, sim,” a secretaria disse solenemente. “Todos os remédios precisam ser registrados. A enfermaria é aqui por trás, terceira porta à esquerda, do outro lado dos registros estudantis.” Ela gesticulou para o corredor atrás dela. “Se a enfermeira não estiver lá, você pode se sentar na cama portátil dentro do escritório dela. Ela deve voltar a qualquer minuto.”
Eu fabriquei outro sorriso. Eu realmente esperava que fosse ser tão fácil.
Dirigindo-me para o corredor, eu parei para diversas vezes para checar sobre meu ombro. Ninguém veio atrás de mim.
O telefone no escritório principal estava tocando, mas soava como um mundo distante do corredor turvo onde eu estava. Eu estava totalmente sozinha, livre para fazer o que eu desejava.
Eu parei com tudo na terceira porta à esquerda. Eu inspirei e bati, mas estava óbvio pela janela escura que a sala estava vazia. Eu empurrei a porta. Ela se moveu com relutância, abrindo com um rangido para uma sala compacta com azulejo branco desgastado. Eu fiquei de pé na entrada por um momento, quase desejando que a enfermeira aparecesse para que eu não tivesse escolha a não ser registrar minhas pílulas de ferro e ir embora. Um rápido olhar para o outro lado do corredor revelou uma porta com uma janela escrita REGISTROS ESTUDANTIS. Ela também estava escura.
Eu foquei minha atenção em um pensamento importunador no fundo da minha mente. Joe alegava que ele não tinha ido para escola no ano passado. Eu estava bem certa de que ele estava mentindo, mas se ele não estivesse, ele ao menos teria um registro estudantil? Ele teria um endereço residencial pelo menos, eu deduzi. E uma ficha médica, e as notas do último semestre. Ainda assim. Uma possível suspensão parecia um preço grande para pagar para espiar a ficha médica de Joe.
Eu inclinei um ombro contra a parede e chequei meu relógio. Mileyme dissera para esperar pelo seu sinal. Ela disse que seria óbvio.
Ótimo.
O telefone no escritório principal tocou novamente, e a secretária atendeu.
Mastigando meu lábio, eu roubei uma segunda espiada na porta rotulada REGISTROS ESTUDANTIL. Havia uma boa chance de ela estar trancada. Arquivos estudantis provavelmente com considerados de alta segurança. Não importava que tipo de distração Miley criasse, se a porta estivesse trancada, eu não entraria.
Eu mudei a minha mochila para o ombro oposto. Outro minuto passou. Eu disse a mim mesma que talvez devesse ir embora...
Por outro lado, e se Miley estivesse certa? E se Joe tivesse um passado criminal? Como sua parceira de biologia, contato regular com ele podia me colocar em perigo. Eu tinha uma responsabilidade de me proteger... Não tinha?
Se a porta estivesse destrancada e os arquivos estivessem em ordem alfabética, eu não teria problema algum em localizar o arquivo de Joe rapidamente. Acrescente outros poucos segundos para folhear seu arquivo por algum sinal de perigo, e eu provavelmente poderia entrar e sair da sala em menos e um minuto. O que era tão breve que poderia parecer que eu não tinha entrado de modo algum.
As coisas tinham ficado estranhamente silenciosas no escritório principal. De repente Miley circulou a esquina. Ela se esgueirou pela parede na minha direção, andando agachada, arrastando suas mãos pela parede, roubando olhares clandestinos por sobre o seu ombro. Era o tipo de andar que espiões elaboravam em filmes antigos.
“Tudo está sob controle,” ela sussurrou.
“O que aconteceu com a secretária?”
“Ela teve que sair do escritório por um minuto.”
“Teve que? Você não a incapacitou, foi?”
“Não dessa vez.”
Graças a Deus pelas pequenas misericórdias.
“Eu alertei uma amiga de bomba do telefone público lá fora,” Miley disse. “A secretária ligou para a polícia, então correu para achar o diretor.”
“Miley!”
Ela bateu em seu pulso. “A hora está passando. Não queremos estar aqui quando os tiras chegarem.”
Nem me diga.
Miley e eu medimos a porta para os registros estudantis.
“Mexa-se,” Miley disse, batendo-me com seu quadril.
Ela abaixou sua manga sobre seu pulso e o bateu na janela.
Nada aconteceu.
“Isso foi só pra praticar,” ela disse. Ela recuou para dar outro soco e eu agarrei seu braço.
“Pode estar destrancada,” eu virei a maçaneta e a porta se abriu.
“Isso não foi tão divertido,” disse Miley.
Uma questão de opinião.
“Entra você,” Miley instruiu. “Eu vou ficar de vigilância. Se tudo correr bem, nós nos encontraremos em uma hora. Encontre-me no restaurante mexicano na esquina da Drake com a Beech.” Ela andou agachada pelo corredor.
Eu fiquei sozinha de pé parcialmente dentro e parcialmente fora da sala estreita alinhada à parede com armários. Antes que a minha consciência me convencesse, eu entrei e fechei a porta atrás de mim, pressionando as minhas costas contra ela.
Com um fôlego profundo, eu escorreguei a minha mochila e me apressei, arrastando meu dedo pela frente dos armários. Eu achei a gaveta marcada CAR-CUV. Com um puxão, a gaveta se abriu com uma pancada. As etiquetas nos arquivos estavam escritas a mão. E eu me perguntei se Coldwater High era a última escola no país não computadorizada.
Meus olhos passaram pelo nome “Jonas.”
Eu puxei o arquivo da gaveta entupida com violência. Eu o segurei em minhas mãos por um momento, tentando me convencer que não havia nada de muito errado com o que eu estava prestes a fazer. E daí que havia informações confidenciais dentro? Como parceira de biologia do Joe, eu tinha o direito de saber dessas coisas.
Do lado de fora, vozes encheram o corredor.
Eu remexi no arquivo aberto e imediatamente recuei. Não fazia sentido algum.
As vozes avançaram.
Eu enfiei o arquivo ao acaso dentro da gaveta e dei um empurrão, fazendo-a agitar-se de volta no armário. Enquanto eu me virava, eu congelei. Do outro lado da janela, o diretor estava parado a meio caminho, seu olhar fechando-se sobre mim.
O que quer que ele estivera dizendo para o grupo, que consistia de todos os maiores membros do conselho da escola, dissipou-se. “Me dêem licença por um instante,” eu o ouvi dizer. O grupo continuou acotovelando-se para frente. Ele não.
Ele abriu a porta. “Essa área é fora dos limites para estudantes.”
Eu coloquei uma cara indefesa. “Eu sinto tanto. Estou tentando achar a enfermaria. A secretária disse que era a terceira porta a direita, mas eu acho que contei errado...” Eu joguei minhas mãos para cima. “Estou perdida.”
Antes que ele pudesse responder, eu puxei com violência o zíper da minha mochila. “Eu deveria registrá-las. Pílulas de ferro,” eu expliquei. “Eu sou anêmica.”
Ele me estudou por um momento, sua testa enrugando. Eu achei que conseguia vê-lo pesando suas opções: ficar por aqui e lidar comigo, ou lidar com a ameaça de bomba. Ele sacudiu seu queixo porta afora. “Eu preciso que você saia do prédio imediatamente.”
Ele sustentou a porta aberta e eu me abaixei por debaixo do seu braço, meu sorriso sofrendo um colapso.
***
Uma hora mais tarde eu deslizei numa cabine de canto no restaurante mexicano na esquina do Drake com a Beech. Um cacto de cerâmica e um coiote empalhado estavam na parede acima de mim. Um homem usando um sombrero mais largo do que ele era alto passou vagueando. Dedilhando cordas em seu vidão, ele me fez uma serenata enquanto o hostess colocava cardápios na mesa. Eu franzi a testa para o símbolo no copo da frente. The Borderline. Eu não tinha comido aqui antes, mas ainda assim algo no nome me soava vagamente familiar.
Miley surgiu atrás de mim e caiu no assento oposto. Nosso garçom seguia de perto.
“Quatro chimis, creme de leite extra, uma porção de nachos, e uma porção de feijões pretos,” Miley disse a ele sem consultar o cardápio.
 “Um red burrito,” eu disse.
“Contas separadas?” ele perguntou.
“Eu não vou pagar por ela,” Miley e eu dissemos ao mesmo tempo.
Após o nosso garçom ir embora, eu disse, “Quatro chimis. Estou ansiosa em ouvir a conexão com uma fruta.”
“Nem começa. Eu estou morrendo de fome. Não comi desde o almoço.” Ela pausou. “Se não contar os Hot Tamales, o que eu não conto.”
Miley é voluptuosa, com complexo escandinávio, e de um jeito heterodoxo, incrivelmente sexy. Houvera dias onde a nossa amizade era a única coisa no caminho da minha inveja. Perto da Miley, a única coisa que eu tenho a meu favor são as minhas pernas. E talvez meu metabolismo. Mas definitivamente não o meu cabelo.
“É melhor que ele traga chips logo,” disse Miley. “Eu vou ficar com urticária se eu não comer algo salgado nos próximos quarenta e cinco segundos. E de qualquer jeito, as primeiras três letras na palavra dieta devem te informar o que eu quero que aconteça a ela.”
“Eles fazem salsa com tomate,” eu apontei. “É vermelho. E abacates são frutas. Eu acho.”
Seu rosto se iluminou. “E vamos pedir daiquiris de morango.”
Miley estava certa. Essa dieta era fácil.
“Já volto,” ela disse, deslizando para fora da cabine. “Aquele período do mês. Depois disso, eu quero o furo.”
Enquanto esperava por ela, eu me encontrei concentrada no assistente de garçom há algumas mesas. Ele estava trabalhando arduamente esfregando um pano sobre o topo de uma mesa. Havia algo estranhamente familiar no jeito com que ele se movia, no jeito que sua camisa caia sobre o arco de suas costas bem definidas. Quase como se ele suspeitasse que estava sendo observado, ele se endireitou e se virou, seus olhos fixos nos meus no exato momento em que eu descobri o que era tão familiar nesse assistente de garçom em particular.
Joe.
Eu não conseguia acreditar nisso. Eu pensei em dar um tapa na minha testa quando eu me lembrei que ele tinha me contado que trabalhava na Borderline.
Enxugando suas mãos em seu avental, ele andou até aqui, aparentemente gostando do meu desconforto enquanto eu procurava ao redor por alguma maneira de escapar, descobrindo que eu não tinha lugar algum para ir a não ser para mais dentro da cabine.
“Ora, ora,” ele disse. “Cinco dias por semana não é o bastante de mim? Tinha que me ceder uma noite também?”
“Eu peço desculpas pela infeliz coincidência.”
Ele deslizou no assento da Miley. Quando ele abaixou seus braços, eles eram tão longos que cruzavam na minha metade da mesa. Ele alcançou o meu copo, girando-o em suas mãos.
“Todos os assentos aqui estão tomados,” eu disse. Quando ele não respondeu, eu peguei meu copo de volta e tomei um gole d’água, engolindo acidentalmente um cubo de gelo. Queimou o caminho todo. “Você não deveria estar trabalhando, ao invés de fraternizando com os clientes?” eu engasguei.
Ele sorriu. “O que você vai fazer domingo a noite?”
Eu bufei. Por acidente. “Você está me chamando para sair?”
“Você está ficando metida. Eu gosto disso, Anjo.”
“Eu não ligo para o que você gosta. Eu não vou sair com você. Não em um encontro. Não sozinha.” Eu queria me chutar por ter sentido um tremor quente ao especular o que uma noite sozinha com Joe poderia trazer. Era mais provável que ele nem quisesse ter dito isso. Era mais provável que ele estivesse me sondando por razões conhecidas só por ele próprio. “Espera aí, você acabou de me chamar de Anjo?” eu perguntei.
“E se eu chamei?”
“Eu não gosto.”
Ele sorriu. “Vai ficar. Anjo.”
Ele se inclinou sobre a mesa, levantou sua mão para o meu rosto, e roçou seu dedão pelo canto da minha boca. Eu me afastei, tarde demais.
Ele esfregou gloss labial entre seu dedão e seu indicador. “Você ficaria melhor sem isso.”
Eu tentei lembrar do que estávamos falando, mas não tão arduamente quanto eu tentei parecer impassível ao seu toque. Eu joguei meu cabelo para trás sobre o meu ombro, pegando o fio da nossa conversa anterior. “De qualquer jeito, eu não posso sair em noites de escola.”
“Que pena. Tem uma festa na costa. Achei que pudéssemos ir.” Ele realmente soou sincero.
Eu não conseguia entendê-lo. Não mesmo. O tremor quente de antes ainda prolongava-se no meu sangue, e eu tomei um longo gole do meu canudo, tentando esfriar meus sentimentos com uma dose de água gelada. Tempo sozinha com Joe seria intrigante, e perigoso. Eu não tinha certeza de como exatamente, mas eu estava confiando nos meus instintos nessa.
Eu fingi um bocejo. “Bem, como eu disse, é uma noite de escola.” Na esperança de convencer a mim mesma mais do que ele, eu acrescentei, “Se essa festa é algo na qual você está interessado, eu posso quase garantir que eu não estarei.”
Pronto, eu pensei. Caso encerrado.
E então, sem nenhum aviso qualquer, eu disse, “Por que você está me chamando, de qualquer jeito?”
Até esse momento, eu fiquei dizendo a mim mesma que não ligava para o que Joe pensava de mim. Mas agora, eu sabia que era uma mentira. Mesmo que isso provavelmente voltasse para me assombrar, eu estava curiosa o bastante sobre Joe para ir a quase qualquer lugar com ele.
“Eu quero ficar com você a sós,” Joe disse. Bem dessa maneira, minhas defesas atacaram.
“Escuta, Joe, eu não quero ser rude, mas –”
“Claro que quer.”
“Bom, você começou!” Adorável. Muito maduro. “Eu não posso ir na festa. Fim de papo.”
“Por que você não pode sair em uma noite de escola, ou por que você tem medo de ficar sozinha comigo?”
“Ambos.” A confissão simplesmente escorregou de mim.
“Você tem medo de todos os caras... ou só de mim?”
Eu girei meus olhos, como se para dizer que não ia responder uma pergunta tão insana.
“Eu te deixo desconfortável?” Sua boca permaneceu uma linha neutra, mas eu detectei um sorriso de especulação preso atrás dela.
Sim, na verdade, ele tinha esse efeito em mim. Ele também tinha a tendência de apagar todos os pensamentos lógicos da minha mente.
“Me desculpe,” eu disse. “Sobre o que estávamos falando?”
“Você.”
“Eu?”
“A sua vida pessoal.”
Eu ri, incerta de que outra resposta dar. “Se isso for sobre mim... e o sexo oposto... Miley já fez esse discurso. Não preciso ouvi-lo duas vezes.”
“E o que a velha e sábia Miley disse?”
Eu estava brincando com as minhas mãos, e as deslizei para fora de visão. “Não consigo imaginar o porquê de você estar tão interessado.”
Ele balançou suavemente sua cabeça. “Interessado? Estamos falando de você. Estou fascinado.” Ele sorriu, e foi um sorriso fantástico. O efeito foi uma pulsação avassaladora – a minha pulsação avassaladora.
“Eu acho que você deveria voltar ao trabalho,” eu disse.
“Se é que isso conta, eu gosto da ideia de que não haja um cara na escola que corresponda às suas expectativas.”
“Eu esqueci que você é a autoridade das minhas supostas expectativas,” eu fiz troça.
Ele me estudou de um jeito que me fez parecer transparente. “Você não é cautelosa, Demi. Não é tímida, tampouco. Você só precisa de uma razão muito boa para sair do seu caminho para conhecer alguém.”
“Eu não quero mais falar de mim.”
“Você acha que desvendou tudo.”
“Não é verdade,” eu disse. “Por exemplo, bem, assim, eu não sei muito sobre... você.”
“Você não está pronta para me conhecer.”
Não havia nada de leve no jeito como ele disse isso. De fato, sua expressão era afiada como uma navalha.
“Eu olhei no seu arquivo estudantil.”
Minhas palavras pairaram no ar por um instante antes que os olhos de Joe se alinhassem com os meus. “Estou bastante certo de que isso é ilegal,” ele disse calmamente.
“Seu arquivo estava vazio. Nada. Nem mesmo uma ficha médica.”
Ele não fingiu parecer surpreso. Ele relaxou de volta em seu assento, os olhos brilhando obsidianamente. “E você está me contando isso porque tem medo que eu cause um surto? Sarampo, ou caxumba?”
“Estou te contando isso porque eu quero que você saiba que eu sei que algo sobre você não é certo. Você não enganou a todos. Eu vou descobrir o que você está aprontando. Eu vou te expor.”
“Estou ansioso por isso.”
Eu corei, captando a insinuação tarde demais. Por sobre a cabeça do Joe, eu consegui ver a Miley tecendo seu caminho pelas mesas.
Eu disse, “ Miley está vindo. Você tem que ir.”
Ele ficou no lugar, olhando-me, considerando.
“Por que está me olhando desse jeito?” eu desafiei.
Ele inclinou-se para frente, preparando-se para levantar. “Porque você não é nem um pouco como eu esperava.”
“Nem você,” eu reagi. “Você é pior.” 
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Próximo capitulo....

13 de mar de 2013

Capitulo 4 + divulgação


VOANDO POR HAWTHORNE, EU PASSEI PELA MINHA casa, dei a volta, cortei até Beech, e me dirigi de volta em direção ao centro de Coldwater. Eu disquei o número da Miley através da agenda eletrônica.
“Algo aconteceu – eu – ele – a coisa – do nada – o Neon –”
“Está falhando. O quê?”
Eu limpei meu nariz com as costas da minha mão. Eu estava tremendo até meus dedos do pé. “Ele surgiu do nada.”
“Quem?”
“Ele –” eu tentei prender meus pensamentos e canalizá-los em palavras. “Ele pulou na frente do carro!”
“Ai, cara. Ai-cara-ai-cara-ai-cara. Você acertou um veado? Você está bem? E o Bambi?” Ela meio choramingou, meio gemeu. “O Neon?”
Eu abri minha boca, mas Miley me cortou.
“Esquece. Eu tenho seguro. Só me diga que não tem pedaços de veado em todo o meu bebê... Nada de pedaços de veado, certo?”
Qualquer resposta que eu estive prestes a dar se dissipou no plano de fundo. Minha mente estava dois passos na frente. Um veado. Talvez eu conseguisse fazer o negócio todo parecer com uma batida em um veado. Eu queria me confidenciar na Miley, mas eu não queria soar louca, tampouco. Como eu ia explicar assistir ao cara que eu tinha atingido se levantar e começar a arrancar a porta do carro? Eu estiquei meu colarinho para baixo do meu ombro. Nenhuma marca vermelha onde ele tinha me agarrado, que eu conseguisse ver...
Eu me dei conta de mim mesma com assombro. Eu realmente estava considerando negar o que tinha acontecido? Eu sabia o que eu tinha visto. Não foi a minha imaginação.
“Santa bizarrice,” Miley disse. “Você não está respondendo. O veado está preso nos faróis, não está? Você está dirigindo por aí com ele travado na frente do carro como um trator para evacuar neve.”
“Posso dormir na sua casa?” Eu queria sair das ruas. Sair da escuridão. Com uma inspiração súbita de ar, eu percebi que para ir para a casa da Miley, eu teria que dirigir de volta pelo cruzamento onde eu tinha atingido-o.
“Eu estou no meu quarto,” disse Miley. “Pode entrar. Te vejo daqui a pouco.”
Com as minhas mãos apertadas no volante, eu empurrei o Neon pela chuva, rezando para que o sinal em Hawthorne estivesse verde em meu favor. Estava, e eu ladrilhei pelo cruzamento, mantendo meus olhos diretamente a frente, mas ao mesmo tempo, roubando olhadelas para as sombras ao lado da estrada. Não havia sinal do cara de máscara de esqui.
Dez minutos mais tarde eu estacionei o Neon na entrada da Vee. O dano à porta era extensivo, e eu tive que colocar meu pé nela e chutar para conseguir sair. Então eu corri para a porta da frente, escapuli para dentro, e corri pela escada do porão.
Miley estava sentada de pernas cruzadas em sua cama, o caderno apoiado em seus joelhos, os fones enfiados, o iPod ligado no máximo. “Eu quero ver o dano hoje a noite, ou devo esperar até ter pelo menos tido sete horas de sono?” ela disse por cima da música.
“Talvez a opção número dois.”
Miley fechou o caderno e tirou os fones. “Vamos acabar com isso logo.”
Quando fomos para fora, eu encarei o Neon por um longo tempo. Não era uma noite quente, mas o tempo não era a causa dos arrepios ondulando nos meus braços. Nada de janela do lado do motorista quebrada. Nada de amasso na porta.
“Algo não está certo,” eu disse. Mas Miley não estava escutando. Ela estava ocupada inspecionando cada centímetro quadrado do Neon.
Eu dei um passo para frente e cutuquei a janela do lado do motorista. Vidro sólido. Eu fechei meus olhos. Quando eu os reabri, a janela ainda estava intacta.
Eu dei uma volta pela traseira do carro. Eu tinha quase completado uma volta inteira quando eu parei de imediato.
Uma fina rachadura no para-brisa.
Miley a viu ao mesmo tempo. “Tem certeza de que não foi um esquilo?”
Minha mente relampejou de volta para os olhos letais atrás da máscara de esqui. Eles eram tão negros que eu não conseguia distinguir as pupilas das íris. Negros como... os de Joe.
“Olhe para mim, estou chorando lágrimas de alegria,” Miley disse, esparramando-se sobre o capô do Neon em um abraço. “Uma rachadura minusculinha. Só isso!”
Eu fabriquei um sorriso, mas meu estômago azedou-se. Há cinco minutos, a janela estava quebrada e a porta estava curvada. Olhando para o carro agora, parecia impossível. Não, parecia loucura. Mas eu vi o punho dele dar um soco no vidro, e eu senti as unhas dele mordiscarem meu ombro.
Não tinha?
Quanto mais eu tentava relembrar da batida, mais eu não conseguia. Pequenas manchas de informação perdida cruzavam minha memória. Os detalhes estavam se dissipando. Ele era alto? Baixo? Magro? Grande? Ele tinha dito alguma coisa?
Eu não conseguia me lembrar. Essa era a parte mais assustadora.
Miley e eu deixamos sua cama as sete e quinze na manhã seguinte e dirigimos até o Enzo’s Bistro para tomar de café da manhã leite fervido. Com minhas mãos encaixadas ao redor da minha xícara de porcelana, eu tentei aquecer o frio profundo dentro de mim. Eu tinha tomado banho, colocado uma veste de baixo e um cardigã emprestados do armário da Miley, e posto um pouco de maquiagem, mas eu mal lembrava de ter feito isso.
“Não olhe agora,” Miley disse. “mas o Sr. Suéter Verde fica olhando para cá, estimando suas longas pernas pela sua calça jeans... Ah! Ele acabou de me saudar. Não estou brincando. Uma saudaçãozinha militar de dois dedos. Que adorável.”
Eu não estava escutando. O acidente da noite passada tinha repassado inteiramente na minha cabeça a noite toda, perseguindo qualquer chance de sono. Meus pensamentos estavam embaralhados, meus olhos estavam secos e pesados, e eu não conseguia me concentrar.
“O Sr. Suéter Verde parece normal, mas o companheiro dele parece um bad boy da pesada,” disse Miley. “Emite um certo sinal não-mexa-comigo. Diz que ele não parece com a cria do Drácula. Diz que eu estou imaginando coisas.”
Levantando meus olhos justamente o bastante para dar uma olhada nele sem parecer que eu estava, eu absorvi seu rosto lindo de ossos suaves. Cabelo loiro pairava em seus ombros. Olhos da cor de cromo. Barba por fazer. Impecavelmente vestido em uma jaqueta impecável e calça jeans escura de designer. Eu disse, “Você está imaginando coisas.”
“Você deixou passar os olhos inexpressivos? A linha capilar em V? O porte alto e esbelto? Ele talvez até seja alto o bastante para mim.”
Miley tem quase 1,83 metros, mas ela tem uma quedinha por saltos. Saltos altos. Ela também tem uma regra sobre não namorar caras baixos.
“Está bem, qual o problema?” Miley perguntou. “Você ficou toda incomunicável. Isso não é por causa da rachadura no para-brisa, é? E daí que você atingiu um animal? Podia acontecer a qualquer um. Claro, as chances seriam muito menores se a sua mãe se mudasse do mato.”
Eu ia contar a Miley a verdade sobre o que tinha acontecido. Em breve. Eu só precisava de um pouco de tempo para ordenar os detalhes. O problema era que eu não via como eu poderia. Os únicos detalhes sobrando eram assustadores, na melhor das hipóteses. Era como se uma borracha tivesse apagado a minha memória. Pensando de volta, eu me lembrava da chuva pesada caindo como cascata nas janelas do Neon, fazendo com que tudo ficasse borrado. Eu teria de fato atingido um veado?
“Hmm, dá uma olhada nisso,” disse Miley. “O Sr. Suéter Verde está saindo do seu assento. Agora, esse é um corpo que frequenta a academia regularmente. Ele definitivamente está caminhando na nossa direção, seus olhos procurando a propriedade, a sua propriedade, isso é.”
Uma meia batida mais tarde, fomos cumprimentadas por um baixo e agradável, “Olá.”
Miley e eu olhamos para cima ao mesmo tempo. O Sr. Suéter Verde estava atrás da nossa mesa, seus dedões presos nos bolsos de sua calça jeans. Ele tinha olhos azuis, com cabelo loiro estilosamente bagunçado arrastado em sua testa.
“Olá para você,” Miley disse. “Eu sou Miley. Esta é Demi Lovato.”
Eu franzi para Miley. Eu não apreciava ela anexando meu sobrenome, sentindo que isso violava um contrato não-verbal entre meninas, ainda mais melhores amigas, ao encontrar garotos desconhecidos. Eu dei um aceno indiferente e trouxe minha xícara aos meus lábios, imediatamente queimando minha língua.
Ele arrastou uma cadeira da mesa ao lado e se sentou de costas nela, seus braços descansando onde suas costas deveriam estar. Esticando uma mão para mim, ele disse, “Eu sou Elliot Saunders.” Sentindo-me formal demais, eu apertei-a. “E esse é Jules,” ele acrescentou, sacudindo seu queixo na direção de seu amigo, que Miley tinha subestimado grosseiramente ao chamar de “alto”.
Jules abaixou todo o seu eu em um assento ao lado de Miley, minimizando a cadeira.
Ela disse para ele, “Eu acho que você é o maior cara que eu já vi. Sério, quanto você mede?”
“Dois metros e oito,” Jules murmurou, tombando em seu assento e cruzando seus braços.
Elliot limpou sua garganta. “Posso pedir algo para as damas comerem?”
“Estou bem,” eu disse, levantando minha xícara. “Eu já pedi.”
Miley me chutou por debaixo da mesa. “Ela vai querer um sonho recheado de creme de baunilha. Na verdade, dois.”
“Lá se foi a dieta, hein?” eu perguntei a Miley.
“Hein para você. A fava de baunilha é uma fruta. Uma fruta marrom.”
“É um legume.”
“Você tem certeza disso?”
Eu não tinha.
Jules fechou seus olhos e apertou a ponte do seu nariz. Aparentemente ele estava tão animado de estar sentado conosco quanto eu estava de tê-los aqui.
Enquanto Elliot andava até o balcão frontal, eu deixei meus olhos arrastarem-se até ele. Ele definitivamente estava no ensino médio, mas eu não tinha visto ele na CHS antes. Eu me lembraria. Ele tinha uma personalidade charmosa e extrovertida que não se dissipava no plano de fundo. Se eu não estivesse me sentindo tão abalada, eu de fato poderia ter me interessado. Em amizade, talvez mais.
“Você mora por aqui?” Miley perguntou a Jules.
“Hmm.”
“Vai para escola?”
“Kinghorn Prep.” Havia uma matiz de superioridade no jeito como ele disse isso.
“Nunca ouvi falar.”
“Escola particular. Portland. Começamos as nove.” Ele levantou sua manga e olhou para seu relógio.
Miley mergulhou um dedo na espuma de seu leite e o lambeu. “É caro?”
Jules olhou para ela diretamente pela primeira vez. Seus olhos se esticaram, mostrando um pouco de branco ao redor das beiradas.
“Você é rico? Aposto que é,” ela disse.
Jules olhou Miley como se ela tivesse acabado de matar uma mosca na testa dele. Ele recuou sua cadeira várias centímetros, se distanciando de nós.
Elliot retornou com uma caixa com meia dúzia de sonhos.
“Dois de creme de baunilha para as damas,” ele disse, empurrando a caixa na minha direção, “e quatro com confeitos para mim. Acho que é melhor eu me encher agora, já que eu não sei como é a lanchonete na Coldwater High.”
Miley quase cuspiu seu leite. “Você frequenta a CHS?”
“A partir de hoje. Eu acabei de me transferir da Kinghorn Prep.”
“Demi e eu frequentamos a CHS,” Miley disse. “Espero que aprecie sua boa sorte. Qualquer coisa que precise saber – incluindo quem deve convidar para o Baile da Primavera – é só perguntar. Demi e eu não temos pares... ainda.”
Eu decidi que era hora de nos separarmos. Jules estava obviamente entediado e irritado, e ficar na companhia dele não estava ajudando o meu humor já impaciente. Eu fiz uma grande apresentação ao olhar no relógio do meu celular e disse, “É melhor irmos para escola, Miley. Temos uma teste de biologia para o qual estudar. Elliot e Jules, foi bom conhecê-los.”
“Nosso teste de biologia não é até a sexta,” disse Miley.
Do lado de dentro, eu me contraio involuntariamente. Do lado de fora, eu sorrio descaradamente. “Certo. Eu quis dizer teste de inglês. As obras de... Geoffrey Chaucer.” Todos sabiam que eu estava mentindo.
De um jeito remoto minha grosseria me incomodava, especialmente já que Elliot não tinha feito nada para merecer isso. Mas eu não queria ficar mais sentada aqui. Eu queria continuar me movendo, me distanciando da noite passada. Talvez a memória diminuindo não fosse uma coisa tão ruim afinal. Quanto mais cedo eu esquecesse o acidente, mais cedo minha vida voltaria ao seu ritmo normal.
“Espero que tenha um ótimo primeiro dia, e talvez vejamos você no almoço,” eu disse a Elliot. Então eu arrastei Miley por seu cotovelo e a dirigi porta afora.
O dia escolar estava quase acabando, somente biologia faltando, e após uma rápida parada no meu armário para trocar livros, eu me dirigi para aula. Miley e eu chegamos antes de Joe; ela deslizou no assento vazio dele e cavou em sua mochila, puxando uma caixa de Hot Tamales
 “Um, a fruta vermelha saindo já,” ela disse, oferecendo-me a caixa.
“Deixe-me advinhar... canela é uma fruta?” eu empurrei a caixa para longe.
“Você não almoçou, tampouco,” Miley disse, franzindo a testa.
“Não estou com fome.”
“Mentirosa. Você está sempre com fome. Isso tem a ver com Joe? Você não está preocupada que ele esteja realmente perseguindo você, está? Porque na noite passada, aquele negócio todo na biblioteca, eu estava brincando.”
Eu massageei círculos pequenos nas minhas têmporas. A dor maçante que tinha tomado residência atrás dos meus olhos resplandeceram na menção de Joe. “Joe é a última das minhas preocupações,” eu disse. Não era exatamente verdade.
“Meu assento, se não se importa.”
Miley eu olhamos para cima simultaneamente ao som da voz de Joe.
Ele soava feliz o bastante, mas ele manteve seus olhos treinados na Miley enquanto ela se levantava e atirava sua mochila por seu ombro. Parecia que ela não conseguia se mover rápida o bastante; ele passou seu braço pelo corredor, convidando-a para fora.
“Bonita como sempre,” ele disse para mim, tomando sua cadeira. Ele se reclinou, esticando suas pernas na sua frente. Eu sempre soubera que ele era alto, mas eu nunca tinha medido. Olhando para a extensão das pernas dele agora, eu pressupus que ele tivesse 1,83. Talvez até 1,85.
“Obrigada,” eu respondi sem pensar. Imediatamente eu quis retirar o que dissera. Obrigada? De todas as coisas que eu poderia ter dito, “obrigada” era a pior. Eu não queria que Joe pensasse que eu tinha gostado do elogio dele. Porque eu não tinha... na maior parte. Não precisava de muita percepção para perceber que ele era encrenca, e eu já tinha tido encrenca o bastante na minha vida. Não havia necessidade de convidar mais. Talvez se eu o ignorasse, ele eventualmente desistiria de puxar conversa. E então poderíamos sentar lado a lado em uma silenciosa harmonia, como todas as outras parcerias na sala.
“Você está cheirando bem também,” disse Joe.
“Chama-se banho.” Eu estava encarando diretamente a frente. Quando ele não respondeu, eu me virei de lado. “Sabonete. Shampoo. Água quente.”
“Pelada. Conheço o esquema.”
Eu abri minha boca para mudar de assunto quando o sinal me cortou.
“Coloquem seus livros de lado,” o Treinador disse de trás da sua mesa. “Vou dar um teste de treinamento para aquecê-los para o verdadeiro dessa sexta.” Ele parou na minha frente, lambendo seu dedo enquanto tentava separar os testes. “Eu quero quinze minutos de silêncio enquanto respondem as perguntas. Então discutiremos o capítulo sete. Boa sorte.”
Eu trabalhei nas primeiras questões, respondendo-as com uma efusão rítmica de fatos memorizados. Ao menos, o teste roubou minha concentração, empurrando o acidente da noite passada e a voz nos fundos da minha mente questionando a minha sanidade de lado. Parando para me livrar de uma câimbra da mão que escrevia, eu senti Joe se inclinar na minha direção.
“Você parece cansada. Noite difícil?” ele sussurrou.
“Eu te vi na biblioteca.” Tomei cuidado em deixar meu lápis deslizando por sobre o meu teste, parecendo concentrada no trabalho.
“O ponto alto da minha noite.”
“Você estava me seguindo?”
Ele reclinou sua cabeça e riu suavemente.
Eu tentei uma abordagem diferente. “O que você estava fazendo lá?”
“Pegando um livro.”
Eu senti os olhos do Treinador em mim e me dediquei ao teste. Após responder mais diversas perguntas, eu roubei uma olhadela à minha esquerda. Eu fiquei surpresa ao encontrar Joe já me observando. Ele sorriu.
Meu coração deu um salto inesperado, assustado por esse sorriso bizarramente atraente. Para o meu horror, eu fiquei tão alarmada que derrubei meu lápis. Ele saltou pelo tampo da mesa algumas vezes antes de rolar pela beirada. Joe se inclinou para apanhá-lo. Ele o segurou na palma de sua mão, e eu tive que me concentrar para não tocar na pele dele enquanto eu o pegava.
“Depois da biblioteca,” eu sussurrei. “Para onde você foi?”
“Por quê?”
“Você me seguiu?” eu exigi baixinho.
“Você parece um tanto irritada, Demi. O que aconteceu?” Suas sobrancelhas se levantaram em preocupação. Era tudo apresentação, porque havia uma faísca derrisória no centro de seus olhos negros.
“Você está me seguindo?”
“Por que eu iria querer te seguir?”
“Responda a pergunta.”
“Demi.” O aviso na voz do Treinador me chamou de volta para o teste. Mas eu não conseguia evitar especular sobre qual teria sido a resposta dele, e ela me fez querer deslizar para longe de Joe. Para o outro lado da sala. Para o outro lado do universo.
O Treinador gorjeou seu apito. “O tempo acabou. Passem seus testes para frente. Esperem perguntas similares nessa sexta. Agora” – ele juntou suas mãos, e o som seco dele me fez estremecer – “para a lição de hoje. Senhorita Cyrus, quer declarar o nosso tópico?”
“S-e-x-o,” Miley anunciou.
Precisamente após ela ter anunciado, eu desliguei. Joe estava me seguindo? Era ele o rosto por trás da máscara de esqui – se houvesse mesmo um rosto por trás da máscara? O que ele queria? Eu abracei meus cotovelos, de repente me sentindo muito gelada. Eu queria que a minha vida voltasse a ser do jeito que era antes de Joe entrasse de supetão na minha vida.
Ao final da aula, eu impedi Joe de ir embora. “Podemos conversar?”
Ele já estava de pé, então ele se sentou na beirada da mesa. “O que foi?”
“Eu sei que você não quer se sentar perto de mim mais do que eu quero me sentar perto de você. Eu acho que o Treinador pode considerar mudar os nossos assentos se você falar com ele. Se você explicar a situação –”
“A situação?”
“Nós não somos – compatíveis.”
Ele esfregou uma mão em sua mandíbula, um gesto calculado ao qual eu tinha me acostumado nos poucos dias que eu o conhecia. “Não somos?”
“Não estou anunciando notícias devastadoras aqui.”
“Quando o Treinador perguntou a minha lista de qualidades desejadas em uma companheira, eu dei você a ele.”
Minha boca caiu ligeiramente. “Retire o que disse.”
“Inteligente. Atraente. Vulnerável. Você discorda?”
Ele estava fazendo isso com o único propósito de me antagonizar, e isso só me irritava mais. “Você vai pedir ao Treinador para mudar os nossos assentos ou não?”
“Passo. Me afeiçoei a você.”
O que eu devia dizer a isso? Ele estava obviamente mirando para conseguir uma reação de mim. O que não era difícil, já que eu nunca conseguia dizer quando ele estava brincando, e quando ele estava sendo sincero.
Eu tentei injetar uma medida de equanimidade na minha voz. “Eu acho que você ficaria muito melhor sentado com outra pessoa. E acho que você sabe disso.” Eu sorri, tensa, mas educada.
“Acho que eu poderia acabar ao lado da Miley.” O sorriso dele parecia tão educado quando. “Não vou forçar a minha sorte.”
Miley apareceu do lado da nossa mesa, olhando entre mim e Joe. “Interrompendo algo?”
“Não,” eu disse, fechando a minha mochila com força. “Eu estava perguntando ao Joe sobre a leitura de hoje a noite. Eu não conseguia lembrar quais páginas o Treinador tinha passado.”
Miley disse, “A lição está no quadro, como sempre. Como se você já não tivesse lido-a.”
Joe riu, parecendo dividir uma piada particular com ele mesmo. Não pela primeira vez, eu desejei saber o que ele estava pensando. Porque as vezes eu tinha certeza que essas piadas particulares tinham tudo a ver comigo. “Algo mais, Demi?” ele disse.
“Não,” eu disse. “Vejo você amanhã.”
“Vou ficar esperando.” Ele piscou. Realmente piscou.
Após Joe estar fora de alcance, Miley agarrou meu braço. “Boas notícias. Jonas. Esse é o sobrenome dele. Eu vi na lista de chamada do Treinador.”
“E isso é algo para se estar feliz porque...?”
“Todos sabem que os estudantes devem registrar remédios na enfermaria.” Ela puxou o bolso fronteiro da minha mochila, onde eu mantinha minhas pílulas de ferro. “Igualmente, todos sabem que a enfermaria está convenientemente
localizada no lado de dentro do escritório principal, onde, acontece, as fichas estudantis também são mantidas.”
Os olhos ardentes, Miley travou seu braço no meu e puxou-me na direção da porta. “Hora de fazer uma investigação de verdade.” 
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Dêem uma olhada no blog super divo da Bruna, e eu já te sigo e acompanho sua fic maravilhosa ok? auhsuahs Jemi FBI. Comentem para o próximo capitulo pessoal
Beiju

9 de mar de 2013

Capítulo 3


O TREINADOR MCCONAUGHTY FICOU DE PÉ NO QUADRO-NEGRO falando com monotonia sem parar sobre algo, mas a minha mente estava distante das complexidades da ciência.
Eu estava ocupada formulando razões para o porque Joe e eu não deveríamos mais ser parceiros, fazendo uma lista delas atrás de um teste velho. Assim que a aula acabasse, eu apresentaria meus argumentos para o Treinador. Não coopera em tarefas, eu escrevi. Mostra pouco interesse em trabalhos de equipe.
Mas eram as coisas que não estavam listadas que me incomodavam. Eu achava a localização da marca de nascença de Joe estranha, e eu fiquei assustada com o acidente na minha janela na noite passada. Eu não suspeitei de imediato de Joe me espionando, mas eu não conseguia ignorar a coincidência de que eu tinha quase certeza de ter visto alguém olhando na minha janela só horas depois de tê-lo conhecido.
Ao pensar em Joe me espionando, eu alcancei o compartimento dianteiro da minha mochila e chacoalhei duas pílulas de ferro de uma garrafa, engolindo-as inteiro. Elas prenderam na minha garganta por um instante, então acharam seu caminho na descida.
De canto de olho, eu capturei as sobrancelhas erguidas de Joe.
Eu considerei explicar que eu era anêmica e que tinha que tomar ferro algumas vezes por dia, especialmente quando estava estressada, mas eu pensei melhor. A anemia não era uma questão de vida ou morte... contanto que eu tomasse doses regulares de ferro. Eu não era paranóica ao ponto de pensar que Joe queria me ferir, mas de algum modo, minha condição médica era uma vulnerabilidade que parecia melhor guardada em segredo.
“Demi?”
O Treinador ficou de pé na frente da sala, sua mão esticada em um gesto que mostrava que ele estava esperando por uma coisa – minha resposta. Uma queimação vagarosa achou seu caminho até as minhas bochechas.
“Você poderia repetir a pergunta?” eu perguntei.
A sala deu risinhos.
O Treinador disse, com uma leve irritação, “Quais as qualidade que te atraem em um parceiro em potencial?”
“Parceiro em potencial?”
“Vamos lá, não temos a tarde toda.”
Eu conseguia ouvir a Miley rindo atrás de mim.
Minha garganta pareceu se contrair. “Você quer que eu liste características de um...?”
“Parceiro em potencial, sim, isso seria prestativo.”
Sem querer fazê-lo, eu olhei de lado para Joe. Ele estava relaxado em seu assento, quase preguiçosamente, estudando-me com satisfação. Ele deu um relampejo de seu sorriso de pirata e balbuciou, Estamos esperando.
Eu empilhei minhas mãos na mesa, esperando parecer mais contida do que eu me sentia. “Eu nunca pensei nisso antes.”
“Bem, pense rápido.”
“Você poderia chamar outra pessoa primeiro?”
O Treinador gesticulou impacientemente para a minha esquerda. “É com você, Joe.”
Ao contrário de mim, Joe falou com confiança. Ele se posicionou para que seu corpo ficasse virado ligeiramente na direção do meu, nossos joelhos a meros centímetros de distância.
“Inteligente. Atraente. Vulnerável.”
O Treinador estava ocupado listando os adjetivos no quadro. “Vulnerável?” ele perguntou. “Como assim?”
Miley falou. “Isso tem alguma coisa a ver com a unidade que estamos estudando? Porque eu não consigo achar nada sobre características desejadas em um parceiro em lugar alguma do nosso texto.”
O Treinador parou de escrever tempo o bastante para olhar sobre seu ombro. “Todos os animais no planeta atraem parceiros com o objetivo de reproduzir. Sapos incham seus corpos. Gorilas machos batem em seus peitos. Você já observou uma lagosta macho subir nas pontas dos pés e estalar suas garras, exigindo a atenção da fêmea? Atração é o primeiro elemento de toda a reprodução animal, incluindo os humanos. Por que não nos dá a sua lista, Srta. Miley.”
Miley levantou cinco dedos. “Lindo, rico, indulgente, ferozmente protetor, e só um pouquinho perigoso.” Um dedo descia com cada descrição.
Joe riu baixinho. “O problema com a atração humana é não saber se ela será retornada.”
“Excelente argumento,” o Treinador disse.
“Humanos são vulneráveis,” Joe continuou, “porque são capazes de se magoar.” Com isso o joelho de Joe bateu contra o meu. Eu me afastei, não ousando me deixar perguntar o que ele queria dizer com o gesto.
O Treinador acenou. “A complexidade da atração humana – e da reprodução – é uma das características que nos diferenciam das outras espécies.”
Eu pensei ter ouvido Joe bufar com isso, mas foi um som muito suave, e eu não consegui ter certeza.
O Treinador continuou, “Desde o começo dos tempos as mulheres se atraíram por parceiros com habilidades de sobrevivência fortes – como inteligência e proeza física – porque homens com essas qualidades tem mais chances de trazer a janta para casa no final do dia.” Ele levantou dois dedões no ar e sorriu. “Janta equivale a sobrevivência, time.”
Ninguém riu.
“Igualmente,” ele continuou, “os homens são atraídos pela beleza porque indica saúde e juventude – não há razão para se acasalar com uma mulher doente que não estará por perto para criar as crianças.” O Treinador empurrou seu óculos até a ponte do nariz e deu risada.
“Isso é tão sexista,” Miley protestou. “Me conte alguma coisa que se relacione a uma mulher no século vinte e um.”
“Se você abordar a reprodução aos olhos da ciência, Senhoria Sky, você verá que as crianças são a chave para a sobrevivência da nossa espécie. E quanto mais filhos você tem, maior a sua contribuição para o patrimônio genético.”
Eu praticamente escutei os olhos da Miley girando. “Eu acho que finalmente estamos chegando perto do tópico de hoje. Sexo.”
“Quase,” disse o Treinador, levantando um dedo. “Antes do sexo vem a atração, mas depois da atração vem a linguagem corporal. Você tem que comunicar ‘Estou interessado’ para um parceiro em potencial, só que não em tantas palavras.”
O Treinador apontou para o meu lado. “Certo, Joe. Digamos que você está numa festa. A sala está cheia de meninas de todas as formas e tamanhos diferentes. Você vê loiras, morenas, ruivas, algumas meninas de cabelo preto. Algumas são extrovertidas, enquanto outras aparentam ser tímidas. Você achou uma garota que encaixe no seu perfil – atraente, inteligente, e vulnerável. Como você a deixa saber que está interessado?”
“Escolho-a. Falo com ela.”
“Bom. Agora para a pergunta principal – como você sabe se ela está na sua ou se ela quer que você continue andando?”
“Eu a estudo,” Joe diz. “Eu descubro o que ela está pensando e sentindo. Ela não vai vir de supetão e me contar, e é por isso que eu tenho de prestar atenção. Ela vira seu corpo em direção ao meu? Ela olha nos meus olhos, então desvia o olhar? Ela morde seu lábio e brinca com seu cabelo, como a Demi está fazendo agora?”
Risadas cresceram na sala. Eu derrubei minhas mãos em meu colo.
“Ela está na minha,” disse Joe, batendo na minha perna novamente. De todas as coisas, eu corei.
“Muito bem! Muito bem!” o Treinador disse, sua voz carregada, sorrindo amplamente para a nossa atenção.
“As veias de sangue no rosto da Demi estão se alargando e a pele dela está esquentando,” Joe disse. “Ela sabe que está sendo avaliada. Ela gosta da atenção, mas ela não tem certeza de como lidar com isso.”
“Eu não estou corando.”
“Ela está nervosa,” Joe disse. “Ela está acariciando seu braço para tirar a atenção de seu rosto para seu corpo, ou talvez para a pele dela. Ambos são pontos vencedores fortes.”
Eu quase engasguei. Ele está brincando, eu disse a mim mesma. Não, ele é insano. Eu não tenho experiência em lidar com lunáticos, e aparecia. Eu sentia que eu passava a maior parte do nosso tempo juntos encarando Joe, de boca aberta. Se eu tinha qualquer ilusão sobre ficar no mesmo nível dele, eu ia ter que bolar uma nova abordagem.
Eu coloquei minhas mãos contra a mesa, levantei meu queixo, e tentei parecer como se eu ainda possuísse alguma dignidade. “Isso é ridículo.”
Esticando seu braço ao seu lado com uma dissimulação exagerada, Joe o pendurou nas costas da minha cadeira. Eu tinha o estranho pressentimento que isso era uma ameaça mirada diretamente a mim, e que ele estava alheio e indiferente de como a turma recebia isso. Eles riam, mas ele não parecia ouvir, segurando os meus olhos tão unicamente com os seus próprios que eu quase acreditava que ele tinha esculpido um mundo pequeno e privado para nós que ninguém mais podia alcançar.
Vulnerável, ele balbuciou.
Eu travei meus tornozelos ao redor das pernas da minha cadeira e dei um solavanco para frente, sentindo o peso do braço dele cair das costas do assento. Eu não era vulnerável.
“E aí está!” o Treinador disse. “Biologia em ação.”
“Podemos por favor falar sobre sexo agora?” perguntou Miley.
“Amanhã. Leiam o capítulo sete e estejam prontos para uma discussão imediata.”
O sinal tocou, e Joe rangeu sua cadeira. “Isso foi divertido. Vamos fazer de novo algum dia.” Antes que eu pudesse bolar algo mais incisivo do que não, obrigada, ele se debruçou atrás de mim e desapareceu para fora da porta.
“Eu vou começar uma petição para despedirem o Treinador,” Miley disse vindo até a minha mesa. “O que foi a aula hoje? Foi um pornô aguado. Ele praticamente colocou você e Joe em cima da sua mesa, na horizontal, sem suas roupas, fazendo A Coisa –”
Eu a focalizei com um olhar que dizia, Parece que eu quero uma repetição?
“Noossa,” Miley disse, recuando.
“Eu preciso falar com o Treinador. Te encontro no armário em dez minutos.”
“Sem dúvida.”
Eu caminhei até a mesa do Treinador, onde ele estava sentado encurvado sobre um livro de jogadas de basquete. Ao primeiro olhar, todos os Xs e Os faziam parecer que ele estava jogando jogo da velha.
“Oi, Demi” ele disse em olhar para cima. “O que posso fazer por você?”
“Estou aqui para te dizer que seu novo mapa de assento e plano de aula está me deixando desconfortável.”
O Treinador relaxou em sua cadeira e dobrou suas mãos atrás de sua cabeça. “Eu gosto do mapa de assentos. Quase tanto quanto eu gosto desse jogo de homem-a-homem em que estou trabalhando para o jogo de sábado.”
Eu coloco uma cópia do código de conduta e direitos estudantis da escola bem no topo dele. “Por lei, nenhum estudante deveria se sentir ameaçado nas propriedades escolares.”
“Você se sente ameaçada?”
“Eu me sinto desconfortável. E eu gostaria de propor uma solução.” Quando o Treinador não me cortou, eu inspirei um sopro de confiança. “Eu monitorarei qualquer estudante das suas aulas de biologia – se você me sentar ao lado da Miley novamente.”
“Joe podia ser monitorado.”
Eu resisti cerrar meus dentes. “Isso acaba com o propósito.”
“Você o viu hoje? Ele estava envolvido na discussão. Eu não o ouvi dizer uma palavra o ano todo, mas eu coloco ele ao seu lado e – bingo. A nota dele aqui vai melhorar.”
“E a da Miley vai cair.”
“Isso acontece quando você não pode olhar pro lado pra pegar a resposta certa,” ele disse secamente.
“O problema da Miley é falta de dedicação. Eu monitorarei ela.”
“Nada feito.” Olhando para seu relógio, ele disse, “Estou atrasado para uma reunião. Acabamos aqui?”
Eu fiquei parada com a minha boca entreaberta, espremendo o meu cérebro para cuspir mais um argumento. Mas parecia que eu estava sem inspiração.
“Vamos dar ao mapa de assento mais algumas semanas. Ah, e eu falei sério sobre monitorar Joe. Vou considerar você dentro.” O Treinador não esperou pela minha resposta; ele assobiou a música tema de Jeopardy e mergulhou para fora da porta.
Às sete horas o céu tinha escurecido para um azul enegrecido, e eu fechei meu casaco para me aquecer. Miley e eu estávamos a caminho do cinema para o estacionamento, tendo acabado de assistir O Sacrifício.
Era meu trabalho resenhar filmes para o eZine, e já que eu já tinha visto todos os outros filmes passando no cinema, tínhamos nos resignado ao último suspense urbano.
“Esse,” Miley disse, “foi o filme mais bizarro que eu já vi. Como regra, não temos mais permissão de ver nada que sugira horror.
Por mim tudo bem. Levando em consideração que alguém estivera espreitando do lado de fora da janela do meu quarto na noite passada e combinando isso com um filme totalmente desenvolvido sobre um perseguidor essa noite, e eu estava começando a me sentir um tantinho paranóica.
“Consegue imaginar?” Miley disse. “Viver sua vida toda não tendo uma pista de que a única razão para que você é mantida viva é para ser usada como um sacrifício?”
Ambas estremecemos.
“E qual era a daquele altar?” ela continuou, irritantemente alheia que eu teria preferido falar sobre o círculo da vida de um fungo do que sobre o filme. “Por que aquele cara mau tocou fogo na pedra antes de amarrá-la? Quando eu escutei a carne dela chiar –”
“Está certo!” Eu praticamente gritei. “Para onde agora?”
“E posso só dizer que se um cara alguma vez me beijar desse jeito, eu vou começar a vomitar. Repulsivo não consegue descrever o que acontecia com a boca dele. Aquilo era maquiagem, certo? Quero dizer, ninguém realmente tem uma boca como aquela na vida real –”
“Minha resenha é para a meia-noite,” eu disse, cortando-a.
“Ah. Certo. Para a biblioteca, então?” Miley destrancou as portas de seu Dodge Neon roxo 1995. “Você está sendo terrivelmente sensível, sabe.”
Eu deslizei para o assento do passageiro. “Culpa do filme.” Culpa do pervertido na minha janela ontem a noite.
“Não estou falando só sobre hoje a noite. Eu notei,” ela disse com uma travessa curva de sua boca, “que você ficou excepcionalmente mal-humorada por uma boa meia hora no final da aula de biologia nos últimos dois dias.”
“Fácil também. Culpe o Joe.”
Os olhos da Miley moveram-se rapidamente para o espelho retrovisor. Ela o ajustou para olhar melhor seus dentes. Ela os lambeu, dando um sorriso praticado.
“Eu tenho que admitir, o lado obscuro dele me atrai.”
Eu não tinha desejo algum de admitir isso, mas Miley não estava sozinha. Eu me sentia atraída por Joe de uma maneira que eu nunca me senti atraída por ninguém. Havia um magnetismo obscuro entre nós. Perto dele, eu me sentia atraída pelos precipícios do perigo. A qualquer momento, parecia que ele podia me empurrar do precipício.
“Ouvir você dizer isso me fazer querer –” eu parei, tentando pensar exatamente no que a nossa atração pelo Joe me fazia querer fazer. Algo desagradável.
“Me diga que você não acha que ele é bonito,” Miley disse, “e eu prometo que nunca trarei o nome dele a tona novamente.”
Eu estiquei meu braço para ligar o rádio. De tudo, devia haver algo melhor a fazer do que arruinar a nossa noite convidando Joe, mesmo que de forma abstrata, para ela. Sentar ao lado dele por uma hora todo dia, cinco dias por semana, era muito mais do que eu podia aguentar. Eu não lhe daria minhas noites também.
“Bem?” Miley pressionou.
“Ele pode ser bonito. Mas eu seria a última a saber. Eu sou uma jurada maculada nessa questão, desculpa.”
“O que isso quer dizer?”
“Quer dizer que eu não consigo passar pela personalidade dele. Nenhuma quantidade de beleza pode compensá-la.”
“Beleza não. Ele é... ousado. Sexy.”
Eu girei meus olhos.
Miley buzinou e bateu em seu freio enquanto um carro parava na frente dela.
“O quê? Você discorda, ou rude-e-diabólico não é o seu tipo?”
“Eu não tenho um tipo,” eu disse. “Não sou tão restrita.”
Miley riu. “Você, querida, é mais do que restrita – você é confinada. Limitada. Seu espectro é tão largo quanto um dos micro-organismos do Treinador. Há muitos poucos, se há algum, garotos na escola por quem você ficaria caída.”
“Isso não é verdade.” Eu disse as palavras automaticamente. Não foi até eu tê-las dito que eu me perguntei o quanto eram acuradas. Eu nunca estive seriamente interessada em ninguém. Como eu era estranha. “Não tem a ver com garotos, tem a ver com... amor. Eu não o achei.”
“Não tem a ver com amor,” Miley disse. “Tem a ver com diversão.”
Eu levantei minhas sobrancelhas, duvidosa. “Beijar um cara que eu não conheço – que eu não gosto – é divertido?”
“Você não esteve prestando atenção na aula de biologia? É muito mais do que beijar.”
“Ah,” eu disse em uma voz iluminada. “O patrimônio genético está deturpado o bastante sem eu contribuir com ele.”
“Quer saber quem eu acho que seria realmente bom?”
“Bom?”
“Bom?” ela repetiu com um sorriso indecente.
“Não particularmente.”
“O seu parceiro.”
“Não chame ele disso,” eu disse. “Parceiro tem uma conotação positiva.”
Miley espremeu-se em uma vaga próxima das portas da biblioteca e deixou o motor morrer. “Você já fantasiou sobre beijá-lo? Você já deu uma espiadinha de lado e imaginou se jogar no Joe e comprimir sua boca contra a dele?”
Eu encarei ela com um olhar que esperava transmitir um choque alarmado. “Você já deu?”
Miley sorriu.
Eu tentei imaginar o que Joe faria se fosse apresentado a essa informação. Do pouco que eu sabia sobre ele, eu sentia sua aversão pela Miley como se fosse concreta o bastante para tocar.
“Ele não é bom o bastante para você,” eu disse.
Ela gemeu. “Cuidado, você só vai fazer eu querer ele ainda mais.”
Dentro da biblioteca nós pegamos uma mesa no térreo, perto de ficção adulta. Eu abri meu laptop e digitei: O Sacrifício, duas estrelas e meia. Duas e meia provavelmente era baixo. Mas eu tinha muito na minha mente e não estava me sentindo particularmente justa.
Miley abriu um saco de chips de maça seca. “Quer um pouco?”
“Não, obrigada.”
Ela espiou dentro do saco. “Se você não vai comê-las, eu terei que. E eu realmente não quero.”
Miley estava na dieta da fruta roleta-da-cor. Três frutas vermelhas por dia, duas azuis, um punhado de verdes...
Ela levantou um chip de maça, examinando-o de frente e de costas.
“Que cor?” eu perguntei.
“Verde-maça-de-fazer-vomitar-ovas-de-peixe. Eu acho.”
Bem então Selena Gomez, a única estudante do segundo ano do time de líderes de torcida na história da Coldwater High, tomou um assento na beirada de nossa mesa. Seu cabelo castanho escuro estava penteado em marias-chiquinhas baixas, e como sempre, sua pele estava oculta debaixo de meio tubo de base. Eu estava positivamente certa de que tinha acertado a quantidade certa, já que não havia um traço de suas espinhas a vista. Eu não via as espinhas da Selena desde a sétima série, o mesmo ano em que ela descobriu Mary Kay. Havia três quartos de dois centímetros entre a bainha de sua saia e o começo de sua calcinha... se ela estava ao menos  usando uma
 “Oi, Gigante,” Selena disse para Miley.
“Oi, Aberração,” Miley disse de volta.
“Minha mãe está procurando por modelos esse final de semana. O pagamento é nove dólares por hora. Pensei que você poderia estar interessada.”
A mãe da Selena gerencia a JCPenney10 local, e nos finais de semana ela faz a Selena e o resto das líderes de torcida modelaram em biquínis na janela de exposição encarando a rua da loja.
“Ela está tendo muita dificuldade em achar modelos de lingerie plus-size,” disse Selena.
“Você tem comida presa nos seus dentes,” Miley disse a Selena. “Na fenda entre os seus dois dentes da frente. Parece com o chocolate Ex-Lax11...”
Selena lambeu seus dentes e deslizou da mesa. Enquanto ela ia embora gingando, Miley enfiou seu dedo em sua boca e fez gestos de vômito para as costas da Selena. “Ela tem sorte de estarmos na biblioteca,” Miley me disse. “Ela tem sorte de não termos nos cruzado em um beco escuro. Última chance – quer chips?”
“Passo.”
Miley vagou para descartar os chips. Alguns minutos depois ela retornou com um livro de romance. Ela tomou o assento ao meu lado e, mostrando a capa do livro, disse, “Algum dia seremos nós. Arrebatadas por caubóis parcialmente vestidos. Eu me pergunto como é beijar um par de lábios queimados pelo sol e com crostas de lama?”
“Sujo,” eu murmurei, digitando.
“Falando em sujo.” Houve um aumento inesperado em sua voz. “Lá está o nosso menino.”
Eu parei de digitar tempo o bastante para espiar sobre meu laptop, e meu coração pulou uma batida. Joe estava de pé do outro lado da sala na fila de empréstimo. Como se ele tivesse me sentido observando-o, ele se virou. Nossos olhos se trancaram por um, dois, três instantes. Eu quebrei-o primeiro, mas não antes de receber um sorriso vagaroso.
As batidas do meu coração ficaram erráticas, e eu disse a mim mesma para me controlar. Eu não ia ir por essa estrada. Não com o Joe. Não a não ser que eu estivesse louca.
“Vamos,” eu disse a Miley. Fechando meu laptop, eu o fechei dentro de sua pasta. Eu empurrei meus livros dentro da minha mochila, derrubando alguns no chão enquanto o fazia.
Miley disse, “Estou tentando ler o título que ele está segurando... espera aí… Como Ser um Perseguidor.”
“Ele não está emprestando um livro com esse título.” Mas eu não estava certa.
“É ou esse ou Como Irradiar Sensualidade Sem Tentar.”
“Shh!” Eu sibilei.
“Acalme-se, ele não consegue ouvir. Ele está falando com a bibliotecária. Ele está indo embora.”
Confirmando isso com uma rápida olhada, eu percebi que se fôssemos embora agora, provavelmente o encontraríamos na porta de saída. E então seria esperado que eu dissesse algo para ele. Eu me ordenei a voltar para a minha cadeira e procurei diligentemente nos meus bolsos por coisa alguma enquanto ele terminava de sair.
“Você acha que é sinistro ele estar aqui na mesma hora que nós?” Miley perguntou.
“Você acha?”
“Eu acho que ele está te seguindo.”
“Eu acho que é uma coincidência.” Isso não era inteiramente verdade. Se eu tivesse que fazer uma lista dos dez lugares em que eu esperaria encontrar Joe
em qualquer noite, a biblioteca pública não entraria. A biblioteca não entraria nos cem lugares. Então o que ele estava fazendo aqui?
A pergunta era particularmente perturbadora depois do que acontecera ontem a noite. Eu não tinha mencionado isso para Miley porque eu esperava que isso encolhesse e murchasse na minha memória até parasse de ter acontecido. Ponto.
“Joe!” Miley fingiu sussurrar. “Você está perseguindo a Nora?”
Eu fixei minha mão sobre a boca dela. “Para com isso. Falo sério.” Eu fiz uma cara severa.
“Aposto que ele está te seguindo,” disse Miley, forçando a minha mão a sair. “Eu aposto que ele tem um histórico disso também. Eu aposto que ele tem medidas cautelares. Deveríamos entrar escondidas no escritório principal. Tudo deve estar na ficha estudantil dele.”
“Não vamos entrar escondidas no escritório principal.”
“Eu podia criar uma distração. Sou boa em distrações. Ninguém veria você entrar. Poderíamos ser como espiãs.”
“Não somos espiãs.”
“Sabe o sobrenome dele?” Miley perguntou.
“Não.”
“Sabe alguma coisa sobre ele?”
“Não. E eu gostaria de continuar desse jeito.”
“Ah, vamos lá. Você ama um bom mistério, e não fica melhor que isso.”
“Os melhores mistérios envolvem um corpo morto. Não temos um corpo morto.”
Miley deu um gritinho. “Ainda não!”
Chacoalhando duas pílulas de ferro da garrafa na minha mochila, eu as engoli juntas.
Miley fez o Neon saltar em sua entrada logo depois das nove e meia. Ela desligou o motor e balançou as chave na minha frente.
“Você não vai me levar para casa?” eu perguntei. Um desperdício de fôlego, já que eu sabia a resposta dela.
“Tem névoa.”
“Uma névoa remendada*.”
* No original, ‘patchy’, que significa remendo e é um trocadilho com o nome do Patch.
Miley sorriu. “Ah, cara. Ele está tão na sua mente. Não que eu te culpe. Pessoalmente, estou esperando sonhar com ele hoje a noite.”
Argh.
“E a névoa sempre piora perto da sua casa,” Miley continuou.
“Me assusta depois de escuro.”
Eu agarrei as chaves. “Muito obrigada.”
“Não me culpe. Diga a sua mãe para se mudar mais pra perto. Diga a ela que tem esse clube novo chamado civilização e que vocês deveriam se juntar.”
“Suponho que espera que eu te pegue antes da escola amanhã?”
“As sete e meia seria bom. Café da manhã por minha conta.”
“É melhor que seja bom.”
“Seja boazinha com o meu bebê.” Ela deu um tapinha no para-lama do Neon. “Mas não boazinha demais. Não posso fazê-la pensar que tem melhor aí fora.”
Na viagem para casa eu permiti que meus pensamentos fizessem uma pequena viagem para Joe.
Miley estava certa – algo sobre ele era incrivelmente sedutor. E incrivelmente sinistro. Quanto mais eu pensava sobre isso, mais eu estava convencida de que algo nele era... estranho. O fato dele gostar de me antagonizar não era exatamente digno de notícia, mas havia uma diferença entre me irritar durante a aula e possivelmente me seguir até a biblioteca para conseguir isso. Não são muitas as pessoas que se dariam a tanto trabalho... a não ser que tivessem uma boa razão.
Na metade do caminho para casa uma chuva incitou nuvens finas a cobrirem a estrada. Dividir minha atenção entre a estrada e os controles no volante, eu tentei localizar os limpadores.
As luzes da rua relinchavam acima e eu me perguntei se uma tempestade mais forte estava se aproximando. Tão perto assim do oceano o clima mudava constantemente, e uma pancada de chuva podia rapidamente se transformar em uma inundação.
Eu acelerei o Neon.
As luzes do lado de fora piscaram novamente. Um pressentimento gelado espetou a parte de trás do meu pescoço, e os pelos nos meus braços formigaram. Meu sexto sentido passou para um alerta máximo. Eu me perguntei se eu achava que estava sendo seguida. Não havia faróis no espelho retrovisor.
Nada de carros a frente, tampouco. Eu estava completamente sozinha. Não era um pensamento muito confortante. Eu acelerei o carro para setenta quilômetros.
Eu achei o limpador, mas mesmo na velocidade máxima eles não conseguiam manter o ritmo da chuva martelante. O sinaleiro a frente ficou amarelo.
Eu parei, chequei para ver se o tráfego estava vazio, então fui para a cruzamento.
Eu escutei o impacto antes de registrar a silhueta negra derrapando pelo capô do carro.
Eu gritei e pisei fundo no freio. A silhueta golpeou contra o para-brisa com uma explosão estilhaçante.
Em impulso, eu virei duramente o volante para a direita. O final do Neon desacelerou, mandando-me girando no cruzamento. A silhueta rolou e desapareceu pela beirada do capô.
Eu estava segurando minha respiração, apertando o volante entre minhas mãos de dobras brancas. Eu levantei meu pé dos pedais. O carro moveu-se rapidamente e parou.
Ele estava agachado a alguns metros, me observando. Ele não parecia nem um pouco... ferido.
Ele estava vestido totalmente de preto e misturava-se a noite, dificutando dizer como ele era. De primeira eu não consegui distinguir nenhum traço facial, e então eu percebi que ele estava usando uma máscara de esqui.
Ele ficou de pé, fechando a distância entre nós. Ele achatou suas palmas na janela do lado do motorista. Nossos olhos se conectaram através dos buracos na máscara. Um sorriso letal pareceu crescer nos dele.
Ele deu outro golpe, o vidro vibrando entre nós.
Eu dei partida no carro. Eu tentei sincronicamente colocá-lo na primeira marcha, empurrar o acelerador e soltar a embreagem. O motor entrou em movimento, mas o carro moveu-se rapidamente de novo e morreu.
Eu liguei o motor mais uma vez, mas fui distraída por um rosnado metálico desafinado. Eu observei com horror enquanto a porta começava a dobrar. Ele estava arrancando – ela – fora. Eu calquei o carro na primeira. Meus sapatos deslizaram por sobre os pedais.
O motor rugiu, a agulha de RPM13 no painel cravando na zona vermelha.
Seu punho passou pela janela numa explosão de vidro. Sua mão tateou meu ombro, fixando-se ao redor da minha mão. Eu dei um grito rouco, pisou com força no acelerador, e soltei a embreagem. O Neon guinchou em movimento. Ele segurou, apertando a minha mão, correndo ao lado do carro por diversos metros antes de soltar.
Eu acelerei para frente com a força da adrenalina. Eu chequei o espelho retrovisor para ter certeza de que ele não estava me perseguindo, então empurrei o espelho para encarar a distância. Eu tive que pressionar os meus lábios juntos para impedi-los de soluçar.